lABORATÓRIO Albuminas Contemporâneas
por Marcello Rocha
A fotografia é, desde o seu surgimento, um jogo sensível entre a técnica e o olhar, entre o cálculo e o imprevisto. No século XIX, quando a imagem em papel ainda era novidade, surgiu a impressão em albumina, um processo que utilizava clara de ovo para recobrir o papel, criando uma superfície lisa, brilhante e capaz de reter, com precisão e contraste, os sais de prata que formariam a imagem.
De 1855 a 1880, as provas em albumina se espalharam pelo mundo, registrando rostos, paisagens e cidades em uma definição que impressiona até hoje. Com o tempo, foram substituídas por técnicas mais rápidas e práticas, mas sua delicadeza e materialidade permaneceram como marcas inconfundíveis.
No universo da fotografia na contemporaneidade, onde o digital parece dominar tudo, revisitar um processo histórico como este é, ao mesmo tempo, um gesto de resistência e um ato poético. É abrir espaço para o tempo lento do fazer, para o cheiro químico que impregna o ateliê, para a espera que transforma o gesto técnico em ritual.
Mais do que apenas replicar um método antigo, a ideia é trazer para o presente uma linguagem visual que carrega consigo memória, fragilidade e permanência, e que tencione o passado fotográfico com questões visuais e conceituais que movam a arte hoje.
Em 2025, fui selecionado para integrar o Laboratório de Impressões – Albuminas Contemporâneas do Instituto Moreira Salles, conduzido por Ailton Silva, mestre em processos fotográficos históricos.
Durante nove encontros presenciais, exploramos não apenas o preparo e a sensibilização do papel, mas também as possibilidades criativas que emergem quando um processo do século XIX encontra um olhar do século XXI. As conversas atravessaram desde a história da técnica até reflexões sobre como ela pode dialogar com outras linguagens visuais e narrativas contemporâneas.
Participar desse laboratório foi estar num espaço onde a prática é pesquisa, e onde a fotografia deixa de ser apenas um registro para se tornar um campo expandido de experimentação.
A albumina, por sua própria natureza, impõe limites e também abre possibilidades. A tonalidade levemente sépia, o brilho sutil da superfície e a textura quase orgânica do papel criam uma estética que não se confunde com nenhuma outra, cada imperfeição se torna parte da obra, cada variação de cor ou densidade é um vestígio do encontro entre matéria e tempo. A fotografia aqui é tanto química quanto conceito, tanto imagem quanto objeto.
Para um público contemporâneo, acostumado à velocidade e à infinitas reproduções, um contraponto. O processo da albumina exige tempo, e sua existência física exige cuidado, características que dialogam com um movimento de retorno à materialidade na arte.
“Albuminar” não é apenas um convite à contemplação, é sobretudo pensar no processo que a gerou, no corpo que a produziu, no tempo que a moldou.
Ao final do laboratório, mais que as impressões produzidas, levo a ampliação do próprio olhar, e junto, um repertório expandido e fascinante: trabalhar com uma técnica histórica é, paradoxalmente, um gesto profundamente contemporâneo, porque nos força a refletir sobre memória, sobre o que escolhemos preservar, e sobre como rearticulamos isso no presente.
E talvez seja exatamente aí que a albumina se mantém viva: não na nostalgia, mas na reinvenção e no reencantamento.




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