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Saul Later

Tony Cenicola/The New York Times
Salve pessoa!
   Quem me conhece sabe o quanto a fotografia de rua é fascinante pra mim, certamente pelos desafios que invariavelmente se apresentam. Pois é, estava apreciando o trabalho de um fotógrafo que é considerado um dos grandes Mestres nessa área, não tão badalado, é verdade. Falo do meu mais novo amigo de infância, o Saul Later (1923-2013). 
Nascido em Pittsburgh, ele retratou o East Village em Manhattan como nenhum outro. Morreu aos 89 anos sendo que na maior parte desse tempo viveu esquecido pelo circuito das artes. O reconhecimento merecido um tanto que tardio, aconteceu somente à partir de 2006 quando já tinha mais de 80 anos, dois andares inteiros na Fundação Henri Cartier-Bresson são  dedicados à sua obra, um para as imagens em cores e outro para os trabalhos realizados em preto e branco.
   Tive uma total identificação logo que percebi as características no seu estilo de fotografar nas ruas, Suas imagens um tanto quanto furtivas e quase sorrateiras, se revelam nas formas, luzes, sombras e nas cores e abstrações da vida cotidiana. Grande parte dos seus frames eram realizadas com objetivas relativamente longas, suas cenas criadas se comprimem em recortes que levam a atenção do espectador diretamente aos temas escolhidos, sem rodeios ou distrações. 
[quote]Eu gosto de objetivas diferentes para diferentes momentos. Sou adepto da lente normal de 50 mm. mas existia um determinado ponto em que eu com uma lente de 150 mm gostava muito do resultado. Experimentei muito, algumas vezes eu trabalhei com a que tinha no momento quando poderia ter preferido outra lente. Eu acho que Picasso disse uma vez que queria usar o verde em uma pintura, mas na ocasião, como não tinha, usava o vermelho. A perfeição não é algo que eu admire. [Risos]. Gosto quando não sabemos por que o fotógrafo fez determinada foto; e quando de repente, sem sequer saber a razão de estar olhando para determinada imagem, descobrimos algo nela, só então começamos a ver. Um ingrediente desejável é um toque de confusão.[/quote]
   Palavras do próprio. Outros fatores que aumentaram a minha admiração pelo seu trabalho vão além da forma de pensar a imagem. Falo sobre sua  íntima relação com a pintura, acompanhado de uma personalidade simpática e discreta e uma, é fato, a pintura aconteceu na sua vida antes mesmo da fotografia. Later afirmava ter aprendido muito com a prática dessa arte e os grandes pintores que haviam existido até então. Compartilho muito dessas observações, sempre percebo a minha fotografia me inspirando na  pintura e vice versa. Um olhar esteticamente saudável pode ser construído através de tais observações. Assim como vejo a fotografia estimulando um outro olhar, ou uma nova composição na pintura, por exemplo. A percepção e o uso correto de luzes, sombras e cores são  aspectos que beneficiam  ambas as linguagens.
   A obra  de Later não transmite urgência ou tensão. É resultado de um flaneur com um olhar amoroso e intimista, ele procurou captar a atmosfera e traduzir as sensações.Isso foi em um tempo que a cor na fotografia não era bem vista pelos grandes artistas da época. Seu uso ficava restrito a amadores ou quando muito, pela publicidade. Essa repulsa ficava evidente quando artistas de peso, como Cartier Bresson por exemplo, afirmavam ser a cor na fotografia um artifício suspeito, superficial. Later fez do Kodachrome (primeiro filme colorido lançado pela Kodak para câmeras de 35mm em 1936) a sua paleta de tintas, imprimindo com seu olhar de pintor a sua visão de vida mansa e bucólica, evidenciando a poética latente contida no cotidiano.
   O jeito meio zen e desprendido do Saul também chamava atenção, principalmente se levarmos em conta que nos dias atuais tornar-se rico, poderoso e famoso são traços desejáveis. Querer se tornar uma celebridade, ganhar muito dinheiro, ter milhares de seguidores e realizar exposições mundo afora é um desejo de boa parte do mundo, seja no universo da fotografia ou não.
    Later evitou a fama, viveu uma vida simples e para si mesmo. Ele virou seu olhar sobre o que gostava pois não precisava de reconhecimento ou afirmação externa dos outros. Viveu feliz, curtindo e apreciando sua fotografia.
   Eu mesmo às vezes reflito em como seria bom ser mais reconhecido, famoso pela minha arte, claro. No entanto, com o amadurecimento compreendi  que o importante é não se preocupar com fama ou reconhecimento, e sim fotografar para si mesmo e ser feliz. Como dizia o próprio fotógrafo, com sábia constatação.
[quote]Eu passei uma grande parte da minha vida sendo ignorado e sempre fui muito feliz dessa maneira. Ser ignorado é um grande privilégio, assim aprendi a ver o que os outros não vêem e a reagir às situações de forma diferente. Eu simplesmente olhei para o mundo, sem estar preparado para nada[/quote]
   Falava também sobre ter uma profunda desconfiança e até desprezo pelas pessoas que são impulsionadas pela ambição de conquistar o mundo. Dizia…
[quote]Existem aqueles que não conseguem se controlar e produzem uma grande quantidade de porcaria que ninguém se importa. Eu acho isso pouco atraente, gosto dos artistas do tipo que fariam algum trabalho de real qualidade, e então parariam por um tempo.[/quote] 
   Ele não se vangloriou de suas realizações nem se colocou em um pedestal, viveu uma vida comum e não se considerava particularmente importante. Explicava que para construir uma carreira bem-sucedida, é preciso determinar algumas metas e ser ambicioso. Mas sempre preferiu um estilo de vida mais simples como beber um café, ouvir música e pintar quando bem lhe aprazia, e se achava um pouco irresponsável por isso. Em contrapartida afirmava que parte do prazer de estar vivo é não se levar tão a sério. Later foi de uma genialidade gigantesca diante de uma simplicidade de igual tamanho, um contraste enorme em vista de notícias que vemos hoje em dia, como essa do fotógrafo fake Eduardo Martins,  e que enganou a muita gente. Desmascarado, deixou flagrante a fragilidade com que nós, incautos internautas estamos expostos, se não conhece a história, vale à pena ler sobre.
   Voltando ao velho Saul, recomendo que visualizem as belas imagens captadas pelo fotógrafo aqui.
   Enjoy!

 

 

 

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