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A magia de Carlomagno

 

 Salve Pessoa!
   “A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade.”
Pablo Picasso                                                                                
   A arte é tão subjetiva, que ficamos sem acreditar que um dia alcançaremos um total entendimento sobre a sua função, somos constantemente atingidos por encantamentos, sendo provocados a refletir e mensurar tais emoções, como classificar a arte? Que necessidade é essa de rotular tudo e à todos?
   Deixemos nos levar pelo simples fato de aceitar as coisas como são, sem rótulos ou expectativas demasiadas. Estive com um grande artista conversando sobre suas impressões  da arte produzida nos dias atuais, e muito me impressionou  a maneira simplificada como enxerga  a arte em si.  José Luiz Carlomagno me recebeu em seu atelier em Copacabana, conversamos sobre assuntos diversos mas sobretudo, das convicções de um  artista que defende o seu figurativismo com garra e talento, sem perder o “bonde” da contemporaneidade. Entenda um pouco do estilo literal e surreal de fazer arte de Carlomagno.
  Photofloo
    Obrigado por abrir as portas do seu atelier para o nosso público, e compartilhar das suas convicções conosco, dá pra sentir uma energia que transcende nesse lugar. 
   Carlomagno
   Fico agradecido querido, e compartilho dessa sensação, é aqui que me alimento de sensações e sentimentos, seja pintando, dando aula, recebendo amigos ou fazendo qualquer atividade que me dê prazer, transformo esse prazer em emoções nas quais personifico nas minhas criações, que dizem muito de mim e também do meu universo particular.
Como você vê a arte contemporânea na atualidade? 
  As pessoas geralmente tem uma ideia errada de arte contemporânea no que tange o seu significado, costumam associar as instalações que vemos produzidas hoje em dia ao termo, quando na verdade o significado da palavra contemporâneo é simplesmente ” o que ou quem pertence ao tempo atual”, o artista tem na minha opinião, a obrigação de se reciclar e manter o frescor no seu trabalho, mas sou contra a castração do estilo, ou seja, da sua identidade em função de modismos, isso não pode existir na arte conceitual.
E como esse conceito se manifesta no trabalho que realiza hoje?
   Quando reproduzo minhas impressões oníricas, referências pessoais na minha formação inicial em arquitetura, além de influências da modernidade, como a tecnologia digital, mas tentando não mudar a minha linguagem, característica que faço questão de preservar, trabalho hoje com colagens, tecidos e texturas além das utilizadas na técnica pictórica, tudo agregado aos temas que desenvolvo há anos. Em busca de renovação, nos últimos tempos ando dando novamente umas “pernadas” lá pelas bandas do Parque Lage.
  E dos artistas contemporâneos, o que tem a dizer?
   Acho que é a tendência natural, artistas multifacetados aparecem  oriundos das cenas independentes, da street culture das periferias e dos antes taxados pejorativamente como guetos, mentalidade que está mudando ainda bem, enfim..esses são alguns dos motivos que tenho também procurado renovação, beber dessas fontes é super importante para que regurgitemos uma produção impregnada pelo novo e pela contemporaneidade que tanto buscamos imprimir na nossa produção, digo, nós que somos de gerações anteriores a essa, mas que permanecemos produtivos, dialogando com essas expressões.  
E isso se traduz também, em novos materiais e suportes
   É preciso adaptar-se as alternativas sustentáveis, coisas dos tempos atuais em que vivemos, por exemplo, tenho trabalhado com muitas galerias no exterior, os chassis em madeira não são bem vistos por lá e nos meus trabalhos enviados, desenvolvo em suportes de maneira diferente do que estamos acostumados a trabalhar por aqui, telas coladas em eucatex são a solução, uma vez que o trabalho chega nas galerias, eles se encarregam dos chassis em material  que  imita a  madeira daqui.

Dá para notar a mulher como tema recorrente em uma fase recente no seu trabalho, tem algum significado especial isso?
 Sim, totalmente, almoçava há um tempo atrás na casa do meu grande amigo Sansão Pereira e nesse dia tive o prazer de conhecer a autora de teledramaturgia Glória Perez, durante a nossa conversa, foi com muito pesar que falamos à respeito do acontecido com a sua filha Daniela, todos conhecemos essa trágica história, em que a menina no auge da sua vida pessoal e profissional, foi brutalmente assassinada por um psicopata e sua esposa igualmente doente, impossível não associar  aos argumentos científicos abordados por Ana Beatriz Barbosa Silva em seu livro “Mentes Perigosas”, entorno de psicopatias.
   Fiquei muito impressionado com a dor daquela mulher de tremenda personalidade mas que naquele momento era apenas uma mãe contando sobre seu sofrimento de perda da filha, me remeteu a lembrança de mulheres que sofreram grandes perdas e em como elas lidavam com isso, daí veio essa série de mulheres guerreiras e sofridas pelas circunstâncias da vida, mas que mostram uma força incomum para lidar com suas dores e mazelas.
 Você falava agora à pouco que a vida é feita de encontros e as surpresas que ela nos apronta, nos fale um pouco sobre isso…
   Isso mesmo, uma história  interessante  foi com a Ana Catarina Hallot, por uma dessas  coincidências que acontecem e como a vida nos reaproximou, a Ana estudou comigo há mais de trinta anos na faculdade de arquitetura e nesse meio tempo acabamos por perder o contato, pelos caminhos que a vida acaba nos impondo, um belo dia ela, através de um amigo em comum, que também fazia aula aqui comigo, se mostrou interessada em desenvolver um estudo em pintura, ele a trouxe aqui no atelier sem nenhum de nós imaginar o que estava acontecendo, quando abri a porta aqui do estúdio foi aquela reação super esquisita” Ué! Você é você?” Hahahaha…foi muito hilário na hora, mas uma surpresa muito boa de revê-la. Tínhamos então muito texto pra bater, e está sendo maravilhoso esse reencontro.
Fale também um pouco do seu trabalho como professor, é notório o amadurecimento artístico de quem opta por frequentar aqui o seu atelier, qual o seu segredo?
   Não tem segredo, procuro fazer um trabalho explorando as qualidades de cada indivíduo, e isso já começo a elaborar na entrevista que faço com os candidatos, claro que tento passar o que suponho ter de melhor nos meus conceitos, e busco sempre ter alunos com características bem diversas, assim consigo um trabalho transformador e heterogêneo no que diz respeito aos estilos desenvolvidos.
No próximo dia 21 de Novembro será realizada a exposição do Atelier Carlomagno, esse evento era anual anteriormente, agora é realizado de dois em dois anos, o porquê dessa opção?
   Como você sabe, é muito desgastante produzir uma exposição, e estou com uma demanda bem consistente no  exterior, a minha agenda fica super apertada, existe muita exigência em relação ao cumprimento dos prazos principalmente, nessa edição participarão 22 artistas e tenho que coordenar todas essas produções, é claro que alguns alunos possuem uma maior autonomia, mas mesmo assim preciso acompanhar todo o processo criativo e de execução, o ritmo fica muito intenso.
Você fala de características diversas nos alunos, quais seriam? Pictóricas?
 Também, mas principalmente,  de personalidade humana, que no fundo, é que faz a diferença no estilo desenvolvido, posso citar algumas diversidades, a Jô Mega por exemplo, está aqui comigo há 10 anos, chegou com um estilo impressionista e mudou totalmente sua maneira de pintar e a temática trabalhada, mas isso foi algo totalmente consciente e proposital nesse processo todo, ela buscou desenvolver o figurativo com muita paixão e determinação, e conseguiu alcançar excelentes resultados. Tem também o Ícone Rocha, jovem artista que veio de uma escola pautada no realismo, mas trabalhando com a técnica de pastel seco com o Geraldo Aguiar, veio com a disposição de encarar o desafio de dominar o óleo, é um fator motivador para um artista já formado, sair da sua zona de conforto e virar iniciante novamente, entretanto, o seu talento segura isso numa boa e já desenvolve um trabalho com uma personalidade própria, a novidade só fica limitada a nova técnica empregada. A Beatriz Cintra é uma menina muito linda e talentosa, no auge dos seus 13 anos, exibe maturidade e segurança naquilo que quer, qualidades fundamentadas na estrutura familiar, notadamente seu porto seguro e que garante todo o suporte que a jovem precisa para desenvolver seu talento, apesar da pouca idade, já tinha um trabalho artístico iniciado com tinta acrílica, Marize de Almeida a orientou nesse período, está tirando de letra as imposições do óleo. Os três estarão com suas obras nessa exposição para a apreciação e deleite do público que for lá na Galeria Marly Faro conferir os trabalhos desenvolvidos, aliás, desde já gostaria de aproveitar a oportunidade e convidar os seus leitores a visitarem a exposição, estamos empenhados em preparar uma Mostra que encante à todos.
 Carlomagno, muito obrigado por nos proporcionar um bate papo tão revigorante e enriquecedor, a maneira simplificada com que define a arte nos faz crer na ideia de que qualquer pessoa possa fazê-lo.
   Mas na verdade eu acredito nisso, todos tem a arte dentro de si, basta desenvolvê-la  de maneira que possa aproveitá-la a seu favor na área de interesse que escolher, e aplicar na vida, seja na área pessoal ou profissional, mesmo não tendo uma ligação direta com o ramo artístico, uma formação com esse tipo de sensibilidade desenvolvida é algo muito rico, pessoal e intransferível. 
   Sucesso na sequência do seu trabalho…
Eu que agradeço. Abraço à todos.
 A galeria Marly Faro receberá a Mostra de 21 de novembro à 3 de dezembro
Enjoy e inté!

 

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