Música

Sobrado 112

 

   Uma sensação nostálgica me invadiu, ao ouvir Sobrado 112…Uma sensação de familiaridade saborosa… Músicas apreciadas pela primeira vez, e que me fizeram sentir uma emoção bem reconfortante, como se estivesse reencontrando sons, timbres, texturas, linhas melódicas, harmonias singulares, em um balaio de referências regionais em suas composições, letra e música, sendo latinamente universais. Música latina, ska, polca, rock, dub, reggae, entre outros gêneros e muita personalidade ao imprimir sua parede sonora! Um som, a meu ver e ouvir, sem rótulos, inclassificável, diria! Mesmo que o grupo tenha se auto-intitulado de Skapolca.

   O grupo surgiu dos encontros no número 112 da Rua Benjamin Constant, na Glória, bairro da Zona Sul, onde moravam Victor Gottardi, voz e guitarra, Claudio Fantinato, percussionista de Pirassununga (SP), terra da cachaça, trazendo seu híbrido ébrio de referências rítmicas, mais Leandro Joaquim, de Ribeirão Preto (SP) e seus metais, oferecendo seu sopro criativo e vivaz, com trompete, flugelhorn e saxhorn, além de suas composições, já com a sua sagacidade carioca apurada e aflorada, adquirida a partir de suas vivências na cidade de São Sebastião, que abençoou estes encontros no bairro da Glória… Oh! Glória, aos deuses da música… A peculiaridade do som nos remete a uma maneira despretensiosa de se fazer música, entretanto com uma pegada consistente e certeira de se criar riffs, linhas melódicas e rítmicas, harmonias eficazes em nos oferecer uma música marcante e dançante, sem fastio, com fome de mostrar a cara, e não de se exibirem, sem ôba ôba, ou desejos de uma fama repentina e fugaz, mas sim, mostrar o valor musical dessa rapaziada de responsa .

 Sobrado 112 é um som de camaradas, reunidos pela música, para a música, que almejam viver da música, algo que hoje em dia, né mole não, pessoa! E esses homens meninos se dedicaram a “ela”, nesse projeto o quanto foi possível. Hoje o grupo não existe mais! Um lamento pros fãs e amantes da boa música. O percussionista Claudio, assim como Leandro, Victor, o baixista Pedro Dantas e o baterista Maurício Calmon, tocam atualmente na carioquíssima Abayomy Afrobeat Orquestra.

Divulgação SWU

   O álbum “Isso Nunca Me Aconteceu Hoje” de 2009, lançado pelo selo Oi Música, com produção da Soulcity, sob a tutela de BiD, ex-guitarrista do Funk Como Le Gusta, big band paulistana, tendo no currículo o álbum “Afrociberdelia”(1996) de Chico Science e Nação Zumbi, entre outras empreitadas. BiD participa com efeitos e voz na faixa 2 e voz nas 6 e 8.

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   Na abertura da bolachinha a malemolência de “ Café”, que ao ouvir, fui tomado pelo cheiro do, “…Preto do bom, ouvindo um som…”. Suingue pra acordar, pra se divertir… Diversão levada a sério, como diria o saudosíssimo Chico Science. Baixo marcante e trompete latino dialogando com a música cubana.

   Na sequência a faixa “Eu Não Quero Ter Razão”, um funk, soul, ska despreocupado… Me fez lembrar de alguma composição do Partido Leve, banda amiga, mencionada nos thanks, que vivia transitando no 112 da Benjamim Constant, em tempos de feitura do disco, além de lembrar o saudoso Tim Maia, assim como da poderosa Banda Black Rio. Um tiro no racionalismo, na paranoia e uma aposta nos frutos do acaso, que amenizam os conflitos a dois.

     Na 3ª faixa “Duas de Cinco”, uma letra que se destaca pela sagacidade carioca, pela mensagem direcionada a uma rapaziada antenada, numa lista de itens musicada ludicamente, muito bem encaixada na harmonia precisa, com momentos de canto dobrado. É reggae, é dub e psicodelia também, e uma guitarrinha africana costurando em alguns momentos. Mais um ponto que, nos faz crer na vanguarda do som que vem do Sobrado 112.

     A 4ª faixa, “Amoroso”, abre com um ska vigoroso, a latinidade salta aos ouvidos em seguida e toca os sentidos, a percussão se destaca, as nuances vocais transitam pela poesia, um cantar falado com a participação especial de Artours el Cantante. Sensação de nostalgia e acolhimento, mais uma vontade irresistível de dançar a dois, nessa atmosfera ébria de sensualidade sonora ativando a libido! É polca também, mas vai mais além… Pode voltar atrás e ouvir de novo, que encontrarás novas perspectivas a cada audição.

   “Muito Menos Você” a 5ª faixa, é uma dor de cotovelo, na verdade uma dor de corno, muito bem resolvida! Uma balada rock, arrastada, atenta pra desilusão de uma relação sem mais por que. “ Você se esqueceu de esquecer de mim/ Dei vários motivos pra te conformar/ Me deixa dizer outra vez/ Prefiro ninguém a você…/…Quando alguém te mostrar que o caminho é pra lá/ que eu não quero ninguém/ muito menos você…” Pegada rock, suingada à vera, com direito a solo de guitarra.

     A faixa 6, homônima ao álbum, é um espécie de rocksteady , meio rockabilly com pitadas de polca (olha ela aí novamente), discorrendo sobre o dilema do sujeito, que ao chegar em casa hesita em ligar pra mulher, aproveitando o ensejo, faz uma canção, fruto do acaso e de sua embriaguez presente.

     A 7ª música, “Narcisa”, é um samba de gafieira descompromissado e ensolarado, com letra que também explora a temática da desilusão amorosa, e uma introdução que remete preguiçosamente ao afoxé. A letra diz: “ …Falava eu te amo e você respondia eu também/…/…Suspeitei fosse eu a bola da vez, e doeu/ Na falta de outro parceiro era eu / E eu dizia eu te amo e você respondia eu também…”

     “Cabeça de Nego” é um groove certeiro e pegajoso, dialogam o Afrobeat e o Afoxé, nos levando a Bahia e pra África Ocidental, assim como pras Antilhas. Influências de Dub, demonstrando a universalidade musical, imersa na música desse sexteto de músicos cariocas e paulistas. A letra abre explanando: “Esse esquenta a cabeça no primeiro tapaaaa…”. Segue no overdub, a guitarra se destaca, mas com a música privilegiando a melodia vocal, cantada com uma alegria fresca, como a brisa à beira mar. Gruda na mente, sacode o corpo e o foguete no pé, num groove maioral. Não tem jeito, o som não descola da cabeça, nêgo! Cuidado com o sol!

   E vem “Grajaú”, 9ª faixa do álbum, uma polca em um bate papo com o rock blues, à la Celso Blues Boys, com solo de guitarra esfuziante no final e baixo na linha de frente, mais uma colagem divertida pra fechar. Com letra sobre uma “dura”(abordagem policial) dentro do “busú”(ônibus) , que por sua vez foi parar na DP. Ah! Tem a intervenção da tuba de Tim Malik. Victor Gottardi afirma que não passa de um caso fictício, sem nenhuma relação com a realidade, será? Haha…

   E finalmente a faixa bônus “Simérius Conan”, uma instrumental, que nos revela a diversidade e o esmero com o qual a bolachinha foi feita, diálogos entre as guitarras e o trompete, marcação precisa da bateria, percussão cadenciada de fundo, e baixo suinguando, numa harmonia de se fazer gosto de ouvir. Um climão de jam session descontraído e leve. Pois está aí, um termo que cabe muito bem para o som do Sobrado 112… Leve, a intensa vontade de se fazer música, apenas música…!!!

http://www.youtube.com/watch?v=K6iyKZeJ_pw

 

Texto: Rogério Melo

 

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