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Antes de sair

 

 Salve, pessoa!
   O artista plástico Luiz Ernesto é um sujeito de gestos comedidos e fala mansa, mas por trás dessa aparente calma e personalidade low profile, existe intensidade e inquietude em sua relação com a arte. No início da década de 70 experimentou o desenho com Misabel Pedrosa, de 1976 a 1978 sua história com o Parque Lage começa à ser esboçada quando estuda com Rubens Gerchman (1942-2008), Roberto Magalhães e Antonio Grosso. Posteriormente, entre 1979 e 1993 ministra aulas, assumindo a coordenação de cursos entre 1989 a 1991. Em 1999 seria diretor na Escola. Em paralelo a essa trajetória, lecionava desenho no Projeto Arco-Íris/Funarte em Manaus e Cuiabá entre 1982 e 1983 e no Grupo Nearte de Petrópolis, entre 1986 e 1988. Ainda encontrou fôlego para em 1992 frequentar a Glasgow Print Studio, na Escócia. Como bolsista, do Conselho Britânico, realizou trabalhos com gravuras e entende nessa experiência a importância  no seu percurso como artista e no seu crescimento pessoal.
 [quote]Não entendo que seja fundamental para a formação de um artista que desenvolve suas pesquisas no seu próprio território viver uma experiência fora, mas é evidente ser bem evolutivo principalmente no sentido humano, e muito na sua formação artística. A possibilidade de conviver entre diferentes culturas, com várias cabeças pensantes e de locais diversos, é maravilhosa! Foi muito interessante poder estar fora da minha zona de conforto, onde a barreira da língua e de costumes dificultam mais as coisas, cresci muito com isso e quando voltei o olhar pra dentro da minha caixa, pude fazer uma leitura mais ampla e diferenciada. Isso é muito bom quando acontece, é libertador. Percebi inclusive que não ficamos devendo em nada ao que é produzido lá fora, como muitas vezes acreditamos por aqui. Esse tradicional “complexo de vira lata” que costumamos cultivar, pra mim não faz nenhum sentido.[/quote]
    Localizada no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro e Inaugurada em 1975 por iniciativa dos artistas Rubens Gerchman e Luiz Áquila, a Escola de Artes Visuais do Parque Laje (EAV) é quase como a segunda casa de Luiz Ernesto.
Foto: Alcyr Cavalcanti
   Afinal, já atuou em vários papéis por lá, de aluno a diretor, passando por coordenador e professor. Uma trajetória que já se vão pelo menos quatro décadas. Sua geração marcou época, fez parte do grupo de artistas que participou de um momento marcante na história da escola. Durante o mês de julho, em um sábado chuvoso de 1984, o imponente edifício eclético da EAV serviria de cenário para uma noite histórica a qual marcaria a vocação da mesma como um celeiro de  artistas na cidade. Sob a curadoria de Marcus Lontra, Paulo Roberto Leal (1946 – 1991) e Sandra Magger, a aclamada exposição Como vai você, geração 80?” foi um divisor de águas nas artes plásticas no Brasil e consagrou boa parte dos artistas participantes. A Mostra entrou para a história como um  marco significativo da pintura contemporânea brasileira.
[quote]Essa exposição foi muito orgânica por conta de toda a força politica latente nela, foi o momento em que  promoveu o desejo de expressão e afirmação do indivíduo, antes anulado pela ditadura. Você imagine, nascia no Brasil a partir do início da década de 80 um processo de abertura política e o Parque Lage representava pra mim uma panela de pressão, onde o grito abafado da arte, durante o período militar, clamava por uma válvula de escape. Nós artistas, todos então muito jovens, não suportávamos mais a repressão à imaginação e à criação que a ditadura tentava impor, e foi tudo muito lindo.[/quote]
   Após esse período fértil e de efervescência artística, Luiz Ernesto participou de muitas exposições coletivas e realizou diversas individuais. Sua produção, assim como sua personalidade cerebral e instigante, aparece de forma branda e ao mesmo tempo provocativa à pensamentos críticos e ávidos por respostas. Seu trabalho dialoga entre referências na fotografia e a linguagem pictórica, aliadas a materiais nada convencionais. À partir de um certo momento da sua trajetória os objetos ganham muita importância na sua pintura, assim como os textos. O que antes eram apenas pequenas frases que complementavam seu trabalho com os pincéis, aos poucos vão explicitamente ganhando mais “corpo”, adquirindo bastante significado em sua obra. 
Obra que compõe o livro “Luiz Ernesto Antologia 1982/2012” Primeiro livro publicado de Luiz Ernesto, a obra reúne trabalhos selecionados dos trinta anos de carreira do artista, além de cinco ensaios críticos.
    Assim, Luiz Ernesto vai encontrando soluções as suas questões, trabalhando em suportes diversos em que muito diferem à textura de uma tela, aplica fibra e resina além das tintas e vai dando “voz” às figuras e vida às suas palavras. Nesse ir e vir de experimentos, torna poética a normalidade do cotidiano, como podemos constatar em seu novo trabalho, que teve início lá pelos idos de 2007. O apartamento de sua avó seria vendido e ele ficou encarregado da missão de  esvaziá-lo, o artista acabou sendo confrontado a muitos objetos e ambientes repletos de memórias. Dessa experiência resultou a Mostra “Antes de sair”, exposição que ocupa a sala “Academia dos Seletos” no Paço Imperial até meados de Maio. Nesse trabalho, o texto ganha também ares de protagonismo, sua narrativa lírica complementa as cenas e nos remete ao seu tempo de menino, mesmo não vivendo esses momentos de fato, conseguimos de forma lúdica visualizar os dias passados naquele lugar carregado de tanta história. Em cada canto da casa ou objeto alvo de suas lentes, descortinava-se uma parte importante de sua vida, adormecida em algum canto da memória. Mas o processo criativo não foi tão confortável emocionalmente, como ele mesmo conta. 
[quote]Por diversas vezes me vi obrigado a dar um tempo da labuta ao deparar-me com objetos e ambientes que traziam lembranças absolutamente afetivas da minha infância e adolescência, através de recordações ternas mas as vezes doloridas, marcadas por uma nostalgia grande e pela dor da ausência. Essa experiência marcou bastante, foi impactanteO processo criativo se iniciou de forma despretensiosa através de uma série de registros fotográficos dos ambientes e objetos que aos poucos eram preparados para serem retirados. O que inicialmente seriam apenas registros simples para um arquivo pessoal logo tomou outro rumo e percebi a riqueza do material que vinha captando, as fotografias possuíam potência artística, pensava isso comigo.[/quote]
“Algo inquietante emanava daquelas pessoas retratadas. Seus olhares oblíquos se dirigiam para o interior do seu mundo. Ao contrário de nossa atual submissão risonha diante das câmeras, raramente sorriam. Os fundos neutros não os situavam em nenhum lugar. Ensimesmados em seu instante particular, eram completamente indiferentes aos olhares daqueles que no futuro, inexoravelmente, os esqueceriam.”
  Quando questionado sobre os próximos objetivos, afirma querer descanso. Mas não literalmente, aquele que imaginamos. No caso do Luiz Ernesto, é de mais trabalho que necessita. É aí que ele se conforta, diz.
[quote]O meu desejo é que esse trabalho atual mature e provoque as reações para as quais foi concebido, tenho aproveitado  para diminuir um pouco o trabalho dentro do atelier, fiquei um bom tempo dedicado a um processo criativo muito solitário e em geral é assim mesmo, exigiu muito emocionalmente e também no lado físico, afinal são situações interligadas. Vivi momentos intensos de desapego por parte da minha história de vida, isso acaba desgastando ainda mais. Penso que nesse momento preciso recarregar as baterias, necessito de uma renovação, minha ideia agora é de trocar pensamentos, trabalhar com meus alunos e conhecer novos conceitos, isso que de uma certa maneira nos renova e prepara para  um novo ciclo onde naturalmente nos leva de encontro ao que nós artistas devemos nos propor. O desafio de reinventar-se à todo o momento, isso que nos alimenta.[/quote]
   Nesse ponto, Luiz Ernesto ressalta a importância da Escola de Artes Visuais  no processo. Ao avaliar o trabalho que realiza no Parque Lage há tantos anos, não percebe nenhum tipo de esgotamento, muito pelo contrário.
   [quote]A própria atmosfera do lugar me ajuda muito nesse sentido, é mágico tudo que acontece aqui. A troca de ideias, como estamos fazendo agora, por exemplo, é muito gratificante e uma experiência muito rica. Todas as segundas ministro um curso junto com o Bruno Miguel que é muito interessante, o “Questões prático / teóricas da pintura na contemporaneidade”. Toda semana selecionamos dois artistas inscritos no curso, onde a proposta é fazer uma leitura dos trabalhos apresentados em pintura, em geral são artistas que já possuem um trabalho em desenvolvimento. Nesses momentos somos surpreendidos por diversas linguagens, propostas as quais somos apresentados naquele instante. Sempre digo que é necessário estar disposto a desconstruir conceitos pré estabelecidos para que possamos criar novos olhares sobre as obras. É um tremendo exercício, absolutamente desafiador para todas as partes envolvidas, não existe a mesmice e exatamente por isso me sinto muito motivado a seguir em frente.[/quote]
   Sua pesquisa, seja em pintura ou fotografia, aliadas aos textos, vão além de registrar fatos e demostram o poder libertário das imagens , elas não precisam ser realidade o tempo todo, elas podem ser miragem, fantasia ou pura ficção. Arte imagética que transporta para outras dimensões.
   No vídeo abaixo da Audaz Produções, Luiz Ernesto resume a obra Antes de sair
  [youtube url=”https://www.youtube.com/watch?v=DI3rsOKOutI” width=”560″ height=”315″]
   A exposição  fica em cartaz no Paço Imperial até 21 de maio de 2017
   Terça à domingo de 12:00 até 18:00
   Entrada franca!
   Enjoy!

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